Opinião: Raphael Veiga pode voltar ao Palmeiras e ganhar uma função completamente nova
- 28/09/2026
Raphael Veiga pode voltar à SEP, mas seu antigo lugar já não existe. E talvez seja justamente aí que esteja a principal questão envolvendo o futuro do meia. O ídolo palestrino está entre os sete jogadores emprestados que têm retorno previsto ao fim da temporada, embora, neste momento, muitos desses atletas não estejam nos planos imediatos do clube. Ao mesmo tempo, o meia já sinalizou que gostaria de retornar ao Verdão. O assunto, portanto, deve ser tratado com o olhar sobre se existe espaço, no Palmeiras de hoje, para o Veiga que existia antes.
Eu particularmente acho que existe, mas não da maneira como ele ocupava o campo em seus melhores anos e essa diferença é importante. Desta forma, o Alviverde precisa entender se as características de Raphael Veiga ainda podem resolver problemas que o time atual apresenta. Existem dois prismas importantes aí, pois também é necessário potencializar o que fez o meia marcar época, com a capacidade de aparecer entre linhas, pisar na área, finalizar de média distância, cobrar bolas paradas e participar diretamente das jogadas decisivas. Mas o contexto ao redor dele mudou radicalmente.
Quando Veiga deixou o Palmeiras, a justificativa esportiva estava justamente na perda de espaço em um meio-campo cada vez mais concorrido. O jogador também vinha de uma temporada marcada por lesões e oscilação, na qual fez 53 partidas, marcou sete gols e deu 11 assistências. Junto com o empréstimo ao América-MEX, veio a renovação de seu contrato até 2028 (prevista uma opção de compra para os mexicanos). A própria diretoria admitia que, caso Veiga recuperasse o bom futebol, as portas poderiam permanecer abertas para um retorno.
O palestrino se foi e o Verdão mudou
O Palmeiras não ficou parado esperando Veiga voltar e construiu outras soluções. Andreas Pereira ganhou importância na organização do meio; Marlon Freitas passou a exercer uma função muito mais ampla, Mauricio oferece mobilidade e chegada, Jhon Arias acrescentou aceleração e capacidade de desequilíbrio e o próprio Abel Ferreira modificou a estrutura da equipe. É por isso que eu não compraria a ideia de que Veiga deveria simplesmente voltar e recuperar a camisa que deixou. O antigo lugar dele não existe mais. E isso não significa que o jogador deixou de ter lugar.
Abel teria de encontrar um novo lugar para ele. Essa diferença parece semântica, mas é praticamente o centro da discussão. Veiga precisaria disputar uma função dentro de uma estrutura que aprendeu a funcionar sem ele. Se Abel mantiver a lógica atual de ter dois jogadores ocupando espaços atrás ou próximos do atacante, o camisa 23 poderia ser utilizado como um meia de aproximação, mas com uma liberdade diferente daquela que Andreas oferece. Em vez de baixar constantemente para organizar a saída, poderia receber mais alto, entre o volante adversário e a linha defensiva, aproximando-se de Flaco López ou Vitor Roque.
Imagine Veiga em ação no
Imagine, por exemplo, uma equipe com Marlon Freitas oferecendo equilíbrio, Andreas participando da construção e Veiga recebendo liberdade para atacar o espaço entre meio e defesa. Não seria necessário transformar Veiga em segundo volante, nem pedir que ele conduzisse o jogo inteiro. Sua função poderia ser justamente aparecer onde o Verdão atual às vezes precisa de mais um jogador capaz de pensar a jogada em poucos metros. E isso é diferente do que acontecia quando ele era tratado como um dos principais responsáveis pela criação da equipe.
Existe ainda outra possibilidade: Veiga como uma peça de rotação para jogos em que Abel precise de mais elaboração pelo centro. Hoje, quando adversários fecham os corredores e obrigam o time a circular a bola de um lado para o outro, ter um jogador especializado em encontrar a recepção entre linhas pode mudar a natureza do ataque. Em determinados jogos, isso poderia complementar o poder de aceleração de Arias e a movimentação de Mauricio em vez de competir diretamente com eles.
Há um detalhe ainda mais interessante quando olhamos para a saída de Allan. O Palmeiras decidiu não fazer uma reposição milionária para a posição e trabalha com a possibilidade de encontrar soluções dentro do próprio elenco. Ao mesmo tempo, a fotografia do grupo mudou, com a saída do jovem para o Manchester City e a permanência de um núcleo de meio-campistas formado por Marlon, Andreas, Emiliano Martínez e Lucas Evangelista. Nesse cenário, Veiga poderia acrescentar algo que nenhum desses jogadores reproduz exatamente: a relação histórica entre meia, área e gol. Contudo, acredito que seu retorno não precisaria significar titularidade automática.
Em 2022 e 2023, havia uma espécie de linguagem particular entre Veiga e o Palmeiras. Sua força estava justamente em aparecer no momento certo. Recebia entre linhas, aproximava-se dos atacantes, atacava a área vindo de trás e tinha uma relação especial com a bola parada. Era um jogador capaz de transformar uma posse aparentemente comum em uma situação de gol. O Verdão atual distribui essas responsabilidades entre mais jogadores. A diferença é que agora Veiga poderia ser utilizado de maneira ainda mais específica, menos dono da criação e mais especialista em determinados momentos do ataque.

A bola parada é outro argumento que não deveria ser tratado como detalhe. Um retorno de Veiga acrescentaria ao elenco uma ferramenta que pode decidir partidas equilibradas, especialmente em competições eliminatórias. E, nesse aspecto, não seria necessário reinventar nada. É uma característica que o jogador já dominava e que continua fazendo parte de seu repertório.
Também é preciso olhar para o que Veiga vem fazendo fora do Brasil. Em agosto, ele marcou um gol e deu duas assistências na vitória do América por 3 a 0 sobre o Atlético San Luis. Na ocasião, afirmou estar fisicamente melhor e mais adaptado ao futebol mexicano; posteriormente, o ge registrou 27 jogos, quatro gols e cinco assistências pelo clube. Isso oferece um elemento concreto sobre a existência de uma tentativa de reconstrução do jogador. Mas também existe uma pergunta inevitável: quem perderia espaço? Andreas? Mauricio? Felipe Anderson? Arias? A resposta não deveria ser automática.
Como queremos o camisa 23?
Se Veiga retornar, o Palestra não pode criar uma hierarquia baseada no currículo. O jogador teria de conquistar minutos pelas características que oferece hoje. Essa é justamente a parte que torna o eventual retorno mais interessante do que nostálgico. O Palmeiras de 2027 não deveria contratar o Veiga de 2023; deveria avaliar o Veiga que estará disponível em 2027.
Sou favorável a esse reaproveitamento, mas por uma razão diferente da nostalgia. Não vejo sentido em trazer Veiga de volta para reproduzir o Palmeiras que existia antes dele sair. Vejo sentido em trazê-lo de volta se Abel conseguir transformar sua experiência, sua chegada à área, sua bola parada e sua capacidade de decidir em uma ferramenta complementar às soluções atuais. O jogador não precisaria recuperar o protagonismo de antes para voltar a ser importante. Talvez a melhor versão de Veiga no Palmeiras de 2027 seja justamente uma versão menos centralizadora e mais cirúrgica.










